CARTAS DE UM DESCONHECIDO
CARTAS DE UM DESCONHECIDO
VAGAS OBSERVAÇÕES SOBRE ORIGEM, DATAS E DESTINATÁRIO
Ao abrir um antigo baú, encontrado no sótão de uma casa que acabara de comprar, entre vários objetos heteróclitos em sua composição, deparei-me com uma maço de cartas, cuidadosamente enlaçadas por uma fita preta, misturadas a recibos amarelecidos e outros papeis.
Observei que estavam preservadas, sem sinais de danos causados por traças, ou outros insetos. Talvez o uso de algum tipo de veneno, próprio para evitar esses danos, tenha sido usado.
Separei o maço de cartas dos demais objetos, curioso em conhecer o conteúdo.
No escritório, organizei os documentos por datas, verificando nos carimbos, a época em que foram recebidos.
Em rápido olhar, percebi que respondiam à questões, naturalmente propostas em correspondências trocadas, entre outros assuntos comezinhos e irrelevantes.
Apurei a existência de dois "personagens" Não moravam na mesma cidade, o que ficava declarado nas diversas referências, quando falavam do clima, da política local, dos costumes e outras banalidades.
Separadas por datas, e autores, colocadas sobre a mesa do escritório, fiquei observando, cismando, remoendo imaginações, tentando organizar um sentimento difuso, que me invadia.
Separado por cinquenta e seis anos daqueles personagens, psicologicamente vivendo em tempos tão social e humano diferentes, senti que, para entender o que estava prestes a invadir, precisava desligar-me de muitos conceitos e preconceitos, para aproximar-me daquelas pessoas.
Sim, já estavam mortas. Não poderiam mais variar suas emoções O que estava escrito traduzia sentimentos definitivos, sem possibilidades de outros horizontes afetivos ou cognitivos.
Era o ponto final do que pensaram em algum momento de suas existências.
E ali estava eu, diante da mesa do escritório, observando papeis amarelados, devaneando e adiando aproximar-me mais, do que um dia, em determinado tempo, duas almas, trocaram suas verdades e sentimentos. Como e por que estavam ali, naquele baú, não faço a menor ideia.
Quem as guardara, e que relação mantinha com os autores das cartas? Intrigava-me mais ainda, pois havia alguma relação velada, que se revelava pelas anotações feitas,
por quem as preservara, no silêncio recôndito de um baú.
Pareceu-me que, simbolicamente, o laço de fita preta indicava que o receptor sobrevivera aos autores.
A essa altura, creio ser preciso apresentar os autores das cartas: Archibaldo e Juvenal. Sobrenomes ficam para a eternidade e que nela se percam...
Ethan, o nome do receptor das missivas, e creio o guardião delas, ao qual os emissores endereçaram suas respostas. Digo respostas, pois pareceu-me estarem respondendo a questões, ou perguntas, feitas.
Algumas indicações nas cartas revelavam que Archibaldo era o mais velho, coisa de quatro anos, sem muita precisão, Vaga referência de época, levou-me a esse número, o que indicava cinquenta e seis anos de idade, o que dava a Juvenal cinquenta e dois.
Quanto a Ethan, não há qualquer indicação que possa traçar o seu perfil. Pelo que tudo indica, deveria ser o mais velho. O único recurso que significativo, ao avaliar os personagens dessa narrativa, é o contexto cultural da época em que viveram.
Meu nome é Adisa. Não tenho responsabilidade sobre ele, pois recém-chegado, e já fora marcado pelo restante da vida, com essa alcunha, pois assim me parece mais do que um nome.
Pesquisei e descobri a sua origem, da língua "akan", uma das mais faladas em Gana, e significa "nos ensinará".
Não imagino o que levou meus pais a marcar-me pela vida afora, com esse nome, pois nada descobri de qualquer relação deles com Gana, um país da África Ocidental. Simbolicamente, talvez esperassem que eu pudesse responder às questões mais significativas da vida.
Tudo bem. Vamos seguir para além dessa divagação inútil.
Essas primeiras observações que aponto, resultam de várias anotações avulsas feitas pelo guardião das cartas, Ethan, num pequeno papel, sobreposto a elas.
Com certeza, a leitura propriamente dos documentos, revelará mais sobre essas vidas, e o que elas podem nos ofertar, além da mera curiosidade, pois os mistérios, por mais ingênuos que sejam, sempre aguçam a nossa alma.
Assim posto, fica essa apresentação, como um pequeno alerta de risco, de que estaremos invadindo almas alheias, apenas para saciar o desejo de descobrir o que há em velhos papeis esquecidos num baú.
Somos assim, dotados do impulso de nos apropriarmos de tudo o que está à nossa volta, atropelando a intimidade e a propriedade alheia.
Creio ser importante, expor a primeira anotação avulsa do Ethan, pois determina seu olhar sobre o significado da vida, o que marcará sua relação com Archibaldo e Juvenal.
"Não sou otimista, quanto a nossa natureza.
As forças ocultas que nos mobilizam e motivam, nem sempre são nobres, ou melhor, quase nunca...
Assim, as anotações e observações sobre o que vou desvelar desses papeis, revelam muito da influência de alguns 'amigos' que me acompanham desde cedo, quando ainda era jovem e os conheci, lendo suas obras. Alguns filósofos, outros contadores de histórias, carregadas de sentidos reveladores do que conseguiram perceber e sentir das fragilidades de nossas 'verdades' sobre a existência."
Seguindo a cronologia das cartas, vamos adiante...
Adisa.
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